A Câmara de Vereadores de Maringá recebeu, na sessão ordinária desta terça-feira (22), a doutora em Linguística Daniele Miki Fujikawa Bózoli e o intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras) Alexander Pagan. Os convidados participaram da tribuna para falar sobre o Dia Nacional do Surdo, celebrado em 26 de setembro.
Autora do convite para o uso da tribuna, a vereadora Akemi Nishimori destacou que o Dia Nacional do Surdo não representa apenas uma data no calendário, mas integra o Setembro Azul, período dedicado à valorização das conquistas, da cultura e dos direitos da comunidade surda, além da reflexão sobre as barreiras ainda enfrentadas diariamente para o exercício pleno da cidadania.
Akemi ressaltou que a acessibilidade deve ser compreendida como um direito, e não como uma concessão. “Acessibilidade não é favor. É direito constitucional”, afirmou.
Língua própria
Ao falar sobre sua trajetória, Daniele contou que é surda e que a língua de sinais sempre teve um significado importante em sua vida. A Libras foi fundamental para compreender o mundo, conquistar independência, acessar oportunidades e estabelecer relações com outras pessoas, inclusive ouvintes.
“Eu sou surda, e a língua de sinais sempre foi importante, sempre teve um significado muito grande na minha vida. Sem ela, eu não entenderia o mundo. A língua de sinais, a Libras, me dá independência, me dá acesso a oportunidades e a vivências, permite encontrar pessoas e também me comunicar com os ouvintes.”
Daniele ressaltou que a comunicação é um dos principais aspectos para a inclusão das pessoas surdas. A Libras permite o acesso ao mundo e à sociedade por meio de uma língua com estrutura própria.
“O principal, o mais importante, é a comunicação, e a gente consegue isso por meio da Libras. A gente consegue acessar o mundo por meio da Libras. Sem a Libras, é como se a gente não estivesse incluído nessa sociedade. Ela é uma língua real, muito importante, que tem a sua própria estrutura.”
Acesso público
Daniele também abordou a acessibilidade durante os períodos eleitorais, citando a presença de intérpretes de Libras em campanhas e transmissões. A discussão sobre acessibilidade não deve se restringir aos períodos de eleição, mas fazer parte permanentemente das políticas públicas.
“Quando a gente vê os candidatos na televisão com intérpretes, às vezes vemos umas janelas pequenas. Essas janelas têm aumentado e isso é discutido principalmente agora, no momento da eleição. Mas isso não precisa ser discutido somente agora. A gente precisa lutar e estudar sobre políticas públicas que envolvam a saúde e todas as políticas públicas relacionadas à Libras.”
A professora também defendeu a formação e a atuação de profissionais de Libras devidamente preparados e fluentes: conhecimentos básicos da língua não são suficientes para garantir uma comunicação adequada.
“É muito importante que haja intérpretes fluentes, não só pessoas simpatizantes que saibam o básico. Nós precisamos de profissionais que realmente sejam fluentes para que possam fazer essa troca, como o doutor Alexander está fazendo aqui agora com vocês. Precisamos dessa união entre ouvintes e surdos, opinando e debatendo juntos.”
Educação em Sinais
A professora propôs uma reflexão sobre a educação de crianças surdas e sobre os desafios para explicar conceitos abstratos, como direitos e cidadania, quando não existe acesso adequado à língua de sinais.
“Eu queria provocar uma reflexão em vocês: como é que a gente explica para uma criança surda o que é um direito? Como a gente explica para uma criança surda o que é cidadania? Como a gente pode explicar? São só sinais, são só palavras? Porque é tudo muito abstrato. Ensinar o que é uma mesa, ensinar o que é um papel, a gente usa os objetos visuais para ensinar as crianças surdas. Mas tudo é muito abstrato para os surdos.”
Daniele reforçou a necessidade de valorização da Libras e explicou que a língua possui gramática e estrutura próprias, sendo uma forma completa de comunicação: o acesso à comunicação é um direito das pessoas surdas.
“É preciso realmente valorizar a língua de sinais. A língua de sinais tem sua gramática própria, tem a sua estrutura. É uma forma de comunicação ampla e completa. Vocês estão conseguindo entender o que eu estou falando agora? É um direito do surdo. É um direito do surdo à comunicação. Não é um direito só da pessoa ouvinte. Essa troca é de todos nós.”
Tradução essencial
Intérprete de Libras da Câmara de Maringá, Alexander Pagan destacou a importância de garantir que as pessoas surdas possam acompanhar discussões e conceitos complexos debatidos no Legislativo.
Assim como Daniele, Pagan ressaltou que a Libras possibilita que pessoas surdas tenham acesso a debates sobre temas abstratos e profundos.
“Tudo que é dito aqui pelos senhores, desde as discussões mais polêmicas e importantes para a comunidade surda até as falas que muitas vezes têm outros motivos, é transmitido para uma pessoa que não escuta por meio da língua de sinais. É uma coisa mágica pensar que, mesmo alguém que não escuta, por meio de uma língua de sinais, pode entender conceitos muitas vezes até abstratos e profundos.”
Dados questionados
Pagan também questionou a forma como os dados oficiais sobre a população surda são levantados no país: os números podem não representar toda a população e citou dificuldades relacionadas à coleta das informações.
“Segundo o IBGE, nós temos um dado de 2002: no Brasil, nós tínhamos 10 milhões de pessoas surdas. Eu já adianto que esse número é subestimado. Como o IBGE faz para fazer esse censo? Normalmente, ele bate na palma na frente da casa da pessoa. Se bate palma na frente da casa da pessoa, a pessoa surda não vai sair. Então, muitos surdos não estão nesse censo.”
Comunicação digital
O intérprete também pediu aos vereadores que ampliem a acessibilidade dos conteúdos publicados nas redes sociais, especialmente com a inclusão de Libras nos vídeos.
“Eu acompanho cada um dos senhores no Instagram, no Facebook, e eu vejo que muitas vezes, tendo aqui o serviço de intérpretes de Libras, nos vídeos de vocês não tem. Então, por favor, pensem nos surdos. Que nesta semana, e que neste Dia do Surdo, a gente possa realmente olhar para eles e pensar que eles estão olhando para os senhores e suplicando que os senhores os olhem.”
Câmara acessível
A Câmara de Vereadores de Maringá ampliou a acessibilidade e a democratização das informações públicas com a atuação oficial de três intérpretes de Libras, iniciada em 19 de fevereiro. O serviço permite que pessoas surdas ou com deficiência auditiva acompanhem, em tempo real, debates, votações e demais atividades realizadas no plenário. A iniciativa reforça o compromisso do Legislativo com a inclusão e a participação cidadã.
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